plano ponta dos castelhanos

ficha técnica

local ponta dos castelhanos_boipeba
data do início do projeto abril de 2009
área do terreno 1.610.000 m2
arquitetura cristiane muniz, fábio valentim, fernanda barbara, fernando viégas (autores) ana paula de castro, carolina klocker, fabiana cyon, gabriela gurgel, matias vázquez, miguel muralha, roberto galvão, sílio almeida (colaboradores)
consultoria engenharia florestal eng. eduardo lins
levantamento planialtimétrico compasso engenharia
fotos de satélite base, engesat

Memória
O plano de ocupação para a Ponta dos Castelhanos, em Boipeba, foi desenvolvido considerando a importância dos ecossistemas do Arquipélago e seu grau de preservação, além das possibilidades de transformação e benefícios trazidos com o desenvolvimento turístico da região.
A implantação de todos os equipamentos, bem como das casas, foi pensada de forma a valorizar as características que fazem desta região uma das mais bonitas do país. A ocupação muito rarefeita, a preservação de todos os mangues e matas remanescentes, a circulação através de pequenos caminhos, os benefícios em favor do desenvolvimento urbano e social da Vila de São Sebastião são algumas das premissas deste plano.

Caracterização da região
No litoral sul, a 70 quilômetros de Salvador [latitude -13.48 e longitude -39.04], há o único município-arquipélago do Brasil: Cairu, composto por três ilhas principais: Boipeba, Tinharé [onde fica Morro de São Paulo] e Cairu, além de outras 23 ilhas menores. Haviam 13.712 habitantes no total, de acordo com o IBGE, em 2008.
O arquipélago de Tinharé é separado do continente através de canais com manguezais, de pouca profundidade na sua maior parte, o que dificulta a navegação e a torna dependente das marés.
Para se chegar a Boipeba a partir de Salvador há três maneiras: por avião comercial monomotor, numa viagem que leva 20 minutos; por lancha, que leva aproximadamente 2 horas; ou por ônibus e barco, que leva quase o dia todo.
Desde 1992, as ilhas de Tinharé e Boipeba constituem Área de Preservação Ambiental, criada através do Decreto Estadual 1.240 05/06/92. A dificuldade de acesso às ilhas, onde não há estradas, e somente se circula a cavalo, a pé ou, às vezes, com trator, contribuiu para sua preservação. Todo o transporte de mercadorias é feito por barcos, e assim, os povoados se localizam às margens dos canais navegáveis e ao longo da costa marinha.
Seus atributos naturais, de acordo com a própria legislação ambiental, estão baseados no rico ecossistema estuarino, com manguezais de grande potencial pesqueiro, praias recortadas, morros, recifes, restingas, brejos, e remanescentes de Mata Atlântica com fauna associada. Entre as espécies encontradas está o jacaré de papo amarelo e aves como curió, cubango e falcão.
As marés no arquipélago são bi-diurnas, quer dizer, o ciclo de variação do nível do mar acontece duas vezes ao dia, em intervalos de aproximadamente seis horas cada. A amplitude da maré ultrapassa dois metros de altura, o que muda radicalmente a paisagem das ilhas ao longo de um mesmo dia. A influência na navegação é grande, e no Rio do Inferno, que separa Boipeba do continente, como o próprio nome diz, fica quase impossível navegar na maré baixa.
As atividades econômicas predominantes são a pesca e o turismo, porém, acabaram se desenvolvendo muitas vezes com caráter predatório, com pouca responsabilidade quanto às conseqüências da exploração. Entretanto, e aos poucos, há algumas instituições que vem implementando ações para conscientização e educação ambiental junto à população e aos turistas.
Há diversos planos públicos de desenvolvimento para a região, porém, com indicações muito genéricas, sem estratégias precisas e localizadas.
A ilha de Boipeba tem aproximadamente 4.000 moradores, e mais da metade vive em Velha Boipeba.


História
Em 1531, Martin Afonso de Souza aportou no arquipélago de Tinharé, onde viviam os índios Aimorés. A Vila de Morro de São Paulo foi fundada em 1535, pelo espanhol Francisco Romero, e assim nascia o primeiro povoado na Capitania Hereditária de Ilhéus. Nesse mesmo ano foram fundadas as vilas de Cairu e Boipeba, e é desse ano ainda o naufrágio do navio espanhol Madre de Diós, na Ponta dos Castelhanos. A maior parte dos tripulantes se salvou e conseguiu chegar à praia, para serem mortos em seguida pelos índios.
O Convento Franciscano de Santo Antonio de Cairu foi construído em 1665, e hoje é tombado pelo IPHAN como patrimônio histórico federal. A Fortaleza de Morro de São Paulo, na ilha de Tinharé, também tombada pelo IPHAN, foi inaugurada em 1630, e teve suas obras estendidas por mais de 100 anos.
A igreja do Divino Espírito Santo, na Vila de Velha Boipeba, é datada do século XVII, porém não há registro de tombamento, assim como para a igreja de São Sebastião, mais recente, localizada no povoado de São Sebastião, também conhecido por Cova da Onça.
Em Valença existe a mais antiga fábrica têxtil do Brasil, Companhia Valença Industrial Têxtil, que desde 1844 empregava mão de obra livre e assalariada, na sua maioria mulheres, mesmo antes da abolição da escravatura. Considerada inovadora, incentivava seus funcionários a participarem do aprendizado da leitura, escrita e das artes.

Caracterização da fazenda
A área da Fazenda Ponta dos Castelhanos, que fica próxima ao povoado de São Sebastião, na Ilha de Boipeba, possui 1.651 hectares [16.510.000m2].
Há milhares de coqueiros, que caracterizam a produção econômica da fazenda, além de áreas cobertas por mata primária, dendê, piaçava e muitas mangabeiras. Os manguezais são altos e exuberantes, e se espalham pela costa.
A fazenda é constituída por dois setores bem distintos: um trecho plano, e outro de colinas.
Aproximadamente 50% da área é completamente plana, com elevações de no máximo 5 metros e coberta por roça de coqueiros. Há um intervalo, mais distante do mar, que é destituído de qualquer vegetação de porte. Sua área é coberta com piso de grama nativa, e é onde se localizava a antiga pista de pouso, de 800 metros de extensão.
O segundo setor, cobrindo outros 50%, se situa em áreas mais elevadas, que chegam a ter 60 metros de altura nos pontos mais altos. Um pequeno ribeirão, o Riacho da Augustinha, corta estas elevações e é coberto por mata densa. Aí está a vegetação mais preservada da fazenda, com mata de porte, somando 440 hectares, e que serão completamente preservadas e enriquecidas com espécies nobres (enriquecimento de biodiversidade florestal).
É por aqui também que se localiza a Vila de São Sebastião, povoado que possui aproximadamente 700 pessoas. Suas condições de infraestrutura instalada são bastante precárias: a rede de distribuição de água, que está sendo ampliada com a construção de um poço, é restrita, poucas casas possuem água encanada. As pessoas precisam buscar água em um poço na vila, e lavar roupa num pequeno tanque público. Não há rede de coleta de esgoto nas quase 160 casas, e este é jogado diretamente no mar.
A energia elétrica chegou recentemente à Vila, e a rede aérea se distribui até a Ponta dos Castelhanos. A coleta de lixo é feita regularmente pela Prefeitura de Cairu, e o lixo, em sua maior parte orgânico, é despejado em aterro próximo à Vila, já dentro da Fazenda.

Plano de Ocupação
O Plano de Ocupação para a Fazenda Ponta dos Castelhanos estabelece como premissa que os empreendimentos turísticos nessa região devam necessariamente considerar o desenvolvimento sustentável de Boipeba, procurar envolver a população do povoado e o poder municipal nas transformações propostas, e manter a qualidade das características naturais que despertaram seu interesse.
Devem estar articulados a propostas sócio-urbanísticas para a Vila e respeitar a Legislação da APA das ilhas de Tinharé e Boipeba.
A proposta para essa ocupação estabelece uma rede de caminhos na área da fazenda, construídos para a circulação das pessoas e das mercadorias, através de transporte não poluente [bicicleta, cavalo, a pé], pois a circulação de carros é restrita.
Como há dois setores muito diferenciados, propusemos duas matrizes de ocupação distintas: uma para a área plana e outra para a área de topografia acidentada.

Plano
Na área plana, dois eixos transversos, norte-sul e leste-oeste, se espalham e interligam grandes áreas, servindo como guias de orientação no território. Os caminhos foram pensados como eixos primordiais, que revelam as sutilezas do sítio, porém, ao serem desenvolvidos em escala mais aproximada, terão sinuosidades para se adequar à vegetação, topografia, hidrografia.
Neste sistema de caminhos, também, a linha de infraestrutura de energia e de água correrá subterrânea.

EIXO NORTE-SUL
O novo aeródromo se localiza em campo aberto, próximo do antigo, porém com pista de 1200 metros de extensão e um pequeno hangar, na extremidade norte desse caminho.
Na extremidade sul se localiza um novo píer, que avança em direção à baía, passando por uma pequena clareira. Este trecho definiu a localização do eixo norte-sul, entre os riachos da Ponte Alta e da Tábua, pois é o único ponto na baía com profundidade suficiente, fora dos recifes, para chegada de embarcações.
O Campo de Golfe foi posicionado junto ao aeródromo, e tira partido da vegetação existente. Esse ponto concentra os principais acessos à nova ocupação e funciona como local de encontro e de espera, com infraestrutura necessária para tal.

EIXO LESTE-OESTE
As casas estão localizadas em sítios de 30.000m2 ao longo do caminho leste-oeste, fazendo frente para o campo de golfe e para a costa coberta pelo manguezal. O caminho se divide e faz um arco onde estão os sítios maiores, de aproximadamente 60.000 m2, que chegarão até a praia.
Paralela à orla, a ocupação se dará ao longo de outro caminho, com lotes voltados para a praia e outros para a mata interna, que variam de 20.000 a 40.000 m2.
Sempre com densidade baixa, essa ocupação aproveita a constituição específica do local, respeitando sua escala. O sistema de circulação garante livre acesso a toda orla do mar.
As pousadas foram implantadas de acordo com cada lugar, para proporcionar características totalmente diferentes às três.
A Pousada 01 possui frente para o mar, na baía, e várias pequenas praias ao longo de seu conjunto. A presença do manguezal no fundo do terreno, dá condições de isolamento a esta pousada.
A Pousada 02 está localizada na outra extremidade, próxima ao campo de golfe e ao rio Catu, onde a paisagem é completamente diferente da de praia. A pequena elevação do terreno possibilita que os alojamentos fiquem sobre o rio, garantindo vistas e independência entre eles.
A área da Pousada 03 fica entre a foz do Rio Catu e a Ponta dos Castelhanos, onde estão as praias mais belas, com profundidade para banho e proximidade aos recifes.
Nessa barra há um local de desova de tartarugas marinhas, já intergrante ao Projeto Tamar, com previsão de instalação de uma base de pesquisa, proteção e educação.
O renque de sítios situados na faixa interna paralela à praia delimita uma grande área verde central, que poderá ser utilizada para lazer, circundada por trilhas que interligam as pousadas e as casas. Arvorismo, trilhas e outros equipamentos podem ser localizados junto a esse Parque.

Morro
A ocupação no morro se diferencia da anterior na adequação às condições topográficas específicas. Com alturas máximas de 60 metros, as colinas são pontuadas por conjuntos de mangabeiras nos topos e mata fechada nas baixadas.
Os caminhos encontram cotas mais suaves e terrenos abertos, evitando as inclinações pesadas e as matas, serpenteiam até se articular com o caminho existente que liga a Vila de São Sebastião à Velha Boipeba, por onde as crianças passam todos os dias de trator para ir à escola.
Um conjunto de casas foi implantado nas colinas próximas ao Rio dos Patos, que tem a Vila de Barra dos Carvalhos na margem oposta. Todas as casas estão no mesmo nível, a cota 40, os topos de morro, quase 20 metros acima, ficarão preservados, e a leitura dessa paisagem será mantida. Foram agrupadas para proporcionar unidade a essa ocupação, porém cada casa poderá ter um projeto diferente, dentro da mesma geometria externa, sem interferir nas vistas da outra sobre a paisagem. Foram pensadas para desenhar esta encosta, com volumes acomodados no morro. Passariam despercebidas por quem caminha pelo topo dos morros, abrindo vistas distantes.

Vila de São Sebastião
O povoado tem ocupação paralela à orla, constituindo-se como uma rua seguindo a baía. As casas tem frente e saída para o mar. No entanto, como a vila se implanta na base de uma encosta íngreme, algumas casas estão localizadas nas cotas mais altas. A necessidade de ligar essas ruas com a praia fez com que a prefeitura construísse uma escada pública que interliga a rua da praia com os caminhos de cima.
Algumas construções novas foram feitas de costas para o mar, em frente às casas mais antigas, descaracterizando a Vila e destituindo o espaço da Rua da Praia de suas qualidades.
As casas são simples, porém engenhosas, casas de pescador. Várias são feitas de taipa de mão, mais conhecido como pau-a-pique. Possuem avarandado contínuo na frente, onde o telhado fica mais baixo, e todas se unem.
Nesse projeto há uma sugestão preliminar de reordenação desta calçada de frente da praia, com soluções simples como adoção de um pavimento único para o passeio, mantendo as faixas de areia e grama, enterrando a rede de energia elétrica e eliminando o posteamento existente.
O empreendimento oferecerá à municipalidade apoio técnico para se implantar na ilha um plano de gestão de resíduos sólidos, notadamente na Vila de São Sebastião.
Está previsto, na própria fazenda, um local para destino de material inerte de construção civil que não puder ser reutilizado.
Será realizado um trabalho educativo entre os usuários do empreendimento para incentivar a não se trazer embalagens desnecessárias para a ilha, dando preferência àquelas de menor impacto ambiental.
Obras de infraestrutura para abastecimento de água e tratamento dos efluentes são urgentes e seu encaminhamento caberia ao poder público.
Algumas ações poderão ser encaminhadas, em forma de convênios, com entidades como Sebrae, e poderiam auxiliar na capacitação da mão de obra local para os novos usos e necessidades que o empreendimento turístico proporcionaria.
A possibilidade de existirem sítios arqueológicos na área da Vila indica a necessidade de pesquisa e prospecções adequadas.

Alojamentos
O desenvolvimento de empreendimento turístico deste porte tende a forçar a expansão rápida da vila existente. Como não há muitas áreas sobressalentes por ali, e a ligação do povoado com o restante da fazenda é feita pela subida da encosta íngreme, ou pela saída em alto mar, foi proposta uma área para alojar os trabalhadores do novo empreendimento.
Este poderia ser o centro logístico das novas obras através da interligação com o continente pelo rio. De frente para a vila de Barra dos Carvalhos, a chegada e saída de material e insumos em geral seriam facilitadas. Poderiam ser previstos depósitos, além das instalações para os próprios trabalhadores e funcionários.